19/12/2018

Carros autônomos tentam ganhar a confiança do consumidor

 

Avanços da indústria não são suficientes para que os carros ganhem as ruas: antes, é preciso ter quem queira comprá-los

 

Enquanto indústria e tecnologia caminham juntas para acelerar a adoção de veículos autônomos, um obstáculo insiste em ficar no meio do caminho: o consumidor. Ainda é grande a parcela de pessoas que afirma ter receio de se locomover em um carro comandado por um computador de bordo. A boa notícia é que o percentual de desconfiados vem caindo ano após ano, a uma velocidade animadora para montadoras e desenvolvedores. A edição deste ano do Global Automotive Consumer Study (Estudo do Consumidor Automotivo Global, em tradução livre), lançado pela consultoria Deloitte, indica que vem caindo o número de condutores que não confiam em veículos que se movem sozinhos. No Brasil, o índice foi de 54%, no ano passado, para 25% neste ano, taxa que faz do consumidor brasileiro um dos mais dispostos a migrar para a nova tecnologia, atrás apenas dos mexicanos. Já os japoneses são os mais resistentes: dos 79% que não confiavam nos autônomos no ano passado, 57% mantêm os pés atrás (veja quadro).

 

 

Além da questão da confiança, outros pontos precisam ser enfrentados para que estes veículos autônomos ganhem as ruas. O perfil da fabricante, por exemplo, é muito importante para o consumidor. A preferência oscila entre as montadoras tradicionais, empresas de tecnologia e empresas que surgiram para criar esse tipo de produto. De modo geral, as montadoras tradicionais são as mais bem vistas pelo público potencial de veículos autônomos, exceto na Ásia, onde predomina a preferência por empresas de tecnologia como fabricantes, conforme os dados da Deloitte.

 

Outro quesito que os consumidores obviamente levam em conta é o preço, que continua alto quando comparado aos modelos à venda no mercado. Nos Estados Unidos, as transações atuais envolvendo veículos novos comuns está em torno de US$ 35.000, o que estabelece um parâmetro de preços para a nova geração de carros sem motorista. Se os valores ficarem muito acima desta faixa, será mais difícil convencer os consumidores de que a compra vale a pena.

 

Já a fronteira dos testes parece ir muito bem, obrigado. Montadoras tradicionais como a GM estão migrando para este mercado, enquanto novas, como a Tesla, referência em veículos elétricos, investem em pesquisa para avançar também no desenvolvimento de autônomos. A Waymo, empresa de carros inteligentes da Alphabet, que por sua vez pertence à Google, começou a testar uma frota sem motoristas humanos em vias públicas em novembro passado. É a primeira a dispensar quem possa assumir o volante em algum momento do percurso. Em breve, os trajetos incluirão passageiros que se deslocarão sem exercerem qualquer intervenção. “Tirar o ser humano da equação vai mudar fundamentalmente o transporte e a forma como as pessoas compram carros”, disse John Krafcik, diretor da Waymo, ao jornal The New York Times. Antes de entrar para a Google, Krafcik fez carreira na Hyundai.

 

Segundo a National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA), órgão federal americano responsável pela mobilidade viária, de 2016 a 2025 viveremos uma era de transição em que os carros terão apenas alguns recursos autônomos. Serão capazes, por exemplo, de estacionar sozinhos e de oferecer a opção de piloto automático em alguns trechos, bem como informar em tempo real sobre a melhor rota. A partir de 2025, é provável que tenhamos carros sem motoristas se deslocando em estradas, levando pessoas apenas como passageiras. Os veículos inteligentes também irão colaborar com o fluxo, reduzindo os congestionamentos.

 

Dados da NHTSA mostram que os americanos gastaram em média cerca de 6,9 bilhões de horas no trânsito por ano, o que, na prática, significa que desperdiçam tempo de trabalho e de convivência com a família, além de gastarem combustível e emitirem poluentes responsáveis por acelerarem as mudanças climáticas. A avaliação do órgão federal é de que os carros autônomos permitiriam aos motoristas aproveitarem melhor seu tempo e seu dinheiro. Sobrariam cerca de 50 minutos por dia, que até então eram utilizados para manter as mãos no volante e os olhos na pista. Sentir-se à vontade para repassar essa responsabilidade para o próprio veículo parece questão de tempo e de persuasão das fabricantes.